Quem foi Miroel Silveira

Miroel Silveira foi autor, poeta, diretor, tradutor, produtor, dançarino, professor, crítico, um homem de letras e de teatro. Foi também um homem de seu tempo, quando despontava com todo vigor, em meados do século XX, uma cultura brasileira liberta, ousada e pujante, que unia a Europa às tradições indígenas e africanas, o erudito ao popular, o sul ao norte, o acadêmico ao inculto. Miroel procurou viver essa cultura em toda a diversidade de suas funções e atividades – exemplo disso foi sua tese de doutorado em que identifica nos grupos filodramáticos fundados pelos imigrantes em São Paulo, as influências que levariam à renovação teatral paulista.

Sintoma desse interesse e dessa multiplicidade foi sua participação no grupo teatral carioca Os Comediantes, aquele mesmo que revolucionou a cena brasileira com a encenação de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, dirigida por Ziembinski. Pois bem, Miroel Silveira, na década de 1980, pouco antes de morrer, teve mais um desses gestos marcantes de quem tem uma sensibilidade única para com as coisas de seu tempo – resgatou do Serviço de Censura do Departamento de Diversões Públicas do Estado de São Paulo, o arquivo de censura prévia ao teatro paulista, com documentos de 1926 a 1968. Eram mais de seis mil processos contendo ofícios, correspondências, pareceres e peças com marcações dos censores, abarcando períodos fundamentais para a história do Brasil – o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Ditadura Militar, a renovação teatral brasileira e a consagração do rádio e da televisão.

Levando essa documentação histórica para a Escola de Comunicações e Artes, onde era professor, Miroel Silveira salvava esse arquivo da destruição e permitia que a censura, um dos mais arbitrários recursos do autoritarismo, fosse estudada de forma sistemática. Não sem razão essa documentação tem seu nome como homenagem – Arquivo Miroel Silveira da ECA/USP.

Assim, graças à visão histórica e à aguda noção de cidadania desse professor e pesquisador, surgiu em 2000, em torno desse arquivo, o primeiro grupo estudando os processos censórios brasileiros – o Grupo de Pesquisa Arquivo Miroel Silveira. Nessa época, tinha-se a impressão de que a censura era coisa do passado, embora recente, e que vivíamos sob os frescos ventos da liberdade de expressão. Hoje sabemos que, embora os mecanismos oficiais e burocráticos de censura não existam mais desde a Constituição de 1988, a tradição censória teima em sobreviver no Brasil, assim como sabemos que mecanismos cada vez mais sutis de controle da informação passaram a funcionar na sociedade.