Coincidências da censura: figuras de linguagem e subentendidos nas obras teatrais do Arquivo Miroel Silveira

Andrea Limberto Leite

Tese de Doutorado apresentada em 2011 ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (área de concentração Teoria e Pesquisa em Comunicação, linha de pesquisa Linguagem e Produção de Sentido em Comunicação) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação, sob orientação da Profa. Dra. Mayra Rodrigues Gomes.

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A partir dos processos de censura prévia ao teatro contidos no Arquivo Miroel Silveira (AMS), investigaremos a ação censória sobre o texto das peças liberadas com cortes. Analisaremos os casos em que o veto incidiu sobre trechos censurados construídos com figuras de linguagem, buscando compreender o funcionamento da lógica da censura em seu caráter de interdição.

Considerando a tradição clássica da Retórica das Figuras e sua retomada no âmbito da Nova Retórica, bem como a Análise do Discurso de linha francesa, com Oswald Ducrot, podemos entender as figuras de linguagem como produtoras de efeitos de sentido, magnificando pressupostos e subentendidos.

Assim, temos como hipótese que o corte do censor age sobre um momento fundamental do texto, no qual se configuram formações discursivas com esmero no recurso de estilo e que, ao mesmo tempo, trabalham a adesão do público. Nesse sentido, os cortes que incidem sobre as figuras de linguagem nos revelam sobre os conteúdos preferencialmente extirpados e as concepções de mundo vigentes no período determinado, entendendo que as peças em questão dialogam com sentidos circulando socialmente.

Concentramo-nos em peças teatrais das décadas de 1950 e 1960, procurando variar, em nossa seleção, a autoria das mesmas e também a temática dos trechos censurados. O mecanismo textual que envolve as figuras de linguagem foi aproximado daquele que apresenta conteúdos na forma de um subentendido. Ainda, a ação da censura foi ligada à coincidência que envolve o surgimento de conteúdos numa configuração tripla: figurados, subentendidos e vetados.