O ato da sociedade paulista: opinião pública e censura ao teatro de 1957 a 1968: manifestações populares presentes nos processos do Arquivo Miroel Silveira da Biblioteca da ECA/USP

Carla de Araújo Risso

Tese de Doutorado apresentada em 2012 ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (área de concentração Teoria e Pesquisa em Comunicação, linha de pesquisa Linguagem e Produção de Sentido em Comunicação) da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Comunicação, sob orientação da Profa. Dra. Mayra Rodrigues Gomes.

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Na sociedade de massas, os processos de comunicação dos grupos estão, de modo imediato, sob a influência dos meios de comunicação de massa ou intermediados por líderes de opinião. Partindo de questões como a opinião pública, a identidade cultural e a contextualização histórica e social, esta pesquisa focou-se nos processos de censura ao teatro profissional presentes no Arquivo Miroel Silveira, bem como sobre as páginas dos principais veículos de mídia impressa da cidade de São Paulo.

O universo de amostra contemplou peças que contêm abaixo-assinados, telegramas, cartas e manifestos populares em seus processos de censura: Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues (1957), censurada em nome da defesa da moral e dos bons costumes; A Semente, de Gianfrancesco Guarnieri (1961), com encenação restrita a um só teatro por abordar questões ideológicas; e Roda Viva, de Chico Buarque (1968), que, depois de dois atentados, a depredação do Teatro Ruth Escobar em São Paulo e a agressão ao elenco em Porto Alegre, foi censurada pelo Governo Federal.

Quanto ao estudo da imprensa, todos os jornais pesquisados mantêm relação cronológica com as peças selecionadas. Paralelamente, efetuou-se uma investigação em Portugal com o objetivo de delinear as relações de poder que estruturam a prática censória nos países de língua portuguesa.

A peça escolhida para estudo além-mar foi A Promessa, de Bernardo Santareno (1957), obra que ocasionou protestos durante sua encenação na cidade do Porto. Com essa outra perspectiva, pretendeu-se compreender e caracterizar a cultura, a moral e os valores da época para além das barreiras espaciais, fixando-se no território da estrutura simbólica da língua.

Apesar das diferenças em relação à liberdade de imprensa nos dois países no período estudado, verificou-se que a metodologia da censura teatral e as manifestações públicas se davam de forma muito semelhante. Tanto no Brasil como em Portugal, o envolvimento da imprensa nos casos em que ocorreram manifestações públicas pró ou contra a censura teatral, seja na divulgação das peças, na divulgação dos autores, ou até mesmo na fomentação de opiniões, não foi o único fator a desencadear os eventos.

Os casos estudados permitem a conclusão de que a trama do tecido social é permeada por diversos discursos circulantes capazes de influenciar a tomada de atitudes no âmbito de microcosmos sociopolíticos. A partir dessa influência, os pequenos grupos, dispostos a expor as suas opiniões publicamente, adquirem o poder de alterar as deliberações da censura teatral, tanto no sentido de proibição como no sentido de liberação.

Na totalidade da amostragem, verificou-se que, de alguma forma, a encenação da obra teatral foi prejudicada frente à rejeição de uma parcela, mesmo que minúscula, da população. E é possível concluir que a opinião pública é capaz de alterar as deliberações da censura, tanto no sentido de proibição como no sentido de liberação, ou seja, a Censura não é impermeável à sociedade na qual se estabelece.